A Comissão Europeia valoriza o software livre como um fator-chave da sua estratégia industrial.

A Comissão Europeia prepara-se para apresentar uma estratégia ambiciosa que coloca o software livre e de código aberto no centro da sua política industrial. Este documento marca uma verdadeira viragem na forma como Bruxelas concebe a soberania digital. Melhor ainda, confere uma clara prioridade ao software livre e de código aberto nos setores da computação em nuvem e da inteligência artificial.

O código aberto deixou de ser apenas mais uma ferramenta e se tornou uma importante alavanca econômica para a União Europeia. Atualmente, a dependência de softwares proprietários americanos continua sendo um problema para a Europa. Este projeto visa corrigir essa situação em larga escala, promovendo soluções abertas.

O software livre é agora um pilar estratégico, com medidas concretas para apoiar as PME e fortalecer o ecossistema europeu. Mas, para além das boas intenções, o problema reside nos detalhes do financiamento e dos critérios de contratação pública.

A estratégia europeia para fazer do software livre uma importante alavanca industrial.

Com um gasto anual de 264 mil milhões de euros em software proprietário, principalmente norte-americano, a Europa já não pode dar-se ao luxo de permanecer como mera espectadora. A proposta da Comissão Europeia prevê que o software livre seja tratado em pé de igualdade com setores vitais como os de semicondutores e energia.

O documento aborda instrumentos regulatórios, orçamentários e de desenvolvimento de competências. Por exemplo, prioriza o software de código aberto em licitações públicas para serviços de nuvem e IA. O objetivo é claro: garantir que as PMEs que publicam software de código aberto, muitas vezes negligenciadas, possam finalmente competir em igualdade de condições.

Essa estratégia também visa estabelecer mecanismos para o financiamento da manutenção de software livre, a preservação de cópias de segurança de código crítico e a estruturação legal de fundações de código aberto em nível europeu. Um verdadeiro conjunto de ferramentas para afirmar a soberania digital.

Por que essa prioridade dada ao software livre nas compras públicas é estratégica?

O modelo tradicional de compras públicas muitas vezes favorece fornecedores proprietários em detrimento de empresas independentes. Isso cria uma dependência prejudicial e difícil de quebrar. A ideia é inverter essa dinâmica para dar mais espaço a empresas inovadoras, geralmente PMEs.

Em termos concretos, as administrações públicas terão de priorizar a aquisição de soluções de código aberto nas áreas de computação em nuvem e inteligência artificial. Serão também incentivadas a tornar o software adquirido acessível, o que implica “dinheiro público = código público”.

Esta é uma mudança profunda, que visa quebrar monopólios estabelecidos e garantir maior transparência e segurança. Não se trata mais de manter o fluxo de dinheiro das gigantes americanas, mas de construir um ecossistema digital sustentável na Europa.

O papel e os desafios das pequenas empresas no ecossistema europeu de código aberto.

Mais da metade das contribuições europeias para o software livre provém de pequenas empresas com menos de 50 funcionários. Esses atores são o cerne da vitalidade do setor. No entanto, muitas vezes encontram obstáculos para se estabelecerem ao lado dos gigantes já consolidados.

O desafio? Visibilidade reduzida, dificuldades de acesso às licitações públicas e uma imagem por vezes ofuscada por grandes fundações ou grupos. Para resolver este problema, a Comissão está a considerar medidas de apoio e um aumento da assistência através de concursos de projetos e financiamento específico.

Iniciativas como a Eurostack, um consórcio de empresas criado para defender a soberania digital, estão a mostrar o caminho. Mas os quadros regulamentares também precisam de evoluir para não penalizarem estas PME inovadoras.

Principais medidas para apoiar as PMEs e garantir a sustentabilidade do ecossistema de software livre.

  • Prioridade nas contratações públicas com critérios elaborados para permitir que as PMEs se candidatem facilmente.
  • Um novo instrumento europeu de manutenção permitindo que a Europa bifurque projetos estratégicos, se necessário.
  • Sistemas de espelho seguros Garantir a disponibilidade e a integridade de softwares críticos.
  • Um quadro jurídico comum para fundações de código aberto, garantindo um equilíbrio europeu face aos gigantes estrangeiros.
  • Programas de treinamento e certificação Integrar software livre em escolas, universidades e para funcionários públicos.

Essas ações devem criar um círculo virtuoso que fomente a inovação e a soberania digital. Sabemos muito bem que, sem recursos, muitas vezes tudo não passa de conversa fiada. A CNLL, principal representante francesa do software livre, reivindica um orçamento compatível com as ambições declaradas.

Ambições reais, mas um orçamento a ser reavaliado para a estratégia de código aberto.

O limite orçamentário anunciado de cerca de um bilhão de euros ao longo de sete anos parece bastante baixo, considerando os interesses econômicos envolvidos. O software livre representa aproximadamente 10% do mercado europeu de software, o que se traduz em bilhões de euros a serem conquistados.

Em comparação, a Comissão gasta muito mais em software proprietário. O objetivo, portanto, é redirecionar parte desses fundos para soluções de código aberto. Sem um orçamento coerente, essa política permanecerá apenas um desejo, e não uma iniciativa concreta.

A CNLL também enfatiza a necessidade de uma definição precisa do que constitui software livre europeu, com critérios claros de origem, governança e contribuição. Para que os concursos sejam justos, a estrutura deve ser bem concebida.

Quais são as perspectivas para o ecossistema de código aberto após este roteiro?

Esta iniciativa representa uma mudança radical no panorama digital europeu. Poderá dar um novo impulso aos projetos de código aberto e incentivar mais empresas a investir neles. Em última análise, o software livre poderá tornar-se um importante ativo industrial.

No entanto, o sucesso dependerá muito da implementação, do financiamento e de uma vontade política genuína para promover a mudança. Boas intenções podem facilmente ter o efeito contrário ao desejado.

O impacto dos novos critérios de compra também deve ser monitorado para evitar que certas grandes fundações, muitas vezes com ligações estrangeiras, voltem a explorar a situação. O desafio é preservar um ecossistema onde a diversidade e a soberania coexistam.

Para aprofundar o assunto e acompanhar os últimos desenvolvimentos, confira este artigo sobre o ecossistema europeu de código aberto ou o Comissão realiza consulta pública sobre ecossistemas digitais abertos.

Por que a Comissão Europeia está dando tanta ênfase ao software livre?

Reduzir a dependência de software proprietário estrangeiro, promover a inovação local e garantir a soberania digital da União.

Quais são os principais obstáculos enfrentados pelas PMEs de código aberto?

Falta de visibilidade, dificuldades de acesso aos mercados públicos e uma imagem ofuscada por grandes fundações.

O que significa priorizar o software livre nas compras públicas?

Agências governamentais priorizam a aquisição de soluções de código aberto e incentivam a reutilização de código financiado com recursos públicos.

O orçamento anunciado é suficiente para atingir os objetivos?

A CNLL considera o orçamento anunciado de um bilhão de euros amplamente insuficiente, tendo em vista os interesses econômicos envolvidos.

Como a Comissão Europeia protege projetos estratégicos de código aberto?

Por meio da implementação de ferramentas de manutenção, espelhos seguros e um quadro jurídico comum para fundações.

Fonte: www.zdnet.fr